O Brasil descobriu uma nova maneira de retirar dinheiro do bolso de quem já tem pouco. Ela cabe na tela do celular, funciona 24 horas por dia e vende a ilusão de que alguns reais podem se transformar rapidamente em centenas ou milhares. São as chamadas bets.
Foram apresentadas como diversão. Viraram um gigantesco negócio alimentado, essencialmente, pela perda dos próprios apostadores.
A dimensão impressiona. Estudo do Banco Central estimou que cerca de 24 milhões de brasileiros realizaram transferências para empresas de apostas entre janeiro e agosto de 2024. As plataformas receberam, em média, R$ 20,8 bilhões por mês. O BC estimou ainda que aproximadamente 15% do total apostado fica retido nas empresas, enquanto o restante retorna aos jogadores na forma de prêmios.
Quando alguém ganha numa aposta, aquilo aparece na tela, vira conversa entre amigos e frequentemente vai parar nas redes sociais. O dinheiro perdido por milhares de outros apostadores não aparece. Mas é justamente essa diferença entre o que entra e o que volta que sustenta o negócio. A casa não precisa ganhar de todos. Precisa ganhar do conjunto.
Bets e o círculo vicioso do endividamento
Pesquisa do Procon-SP divulgada em 2026 mostra o outro lado dessa história. Entre os consumidores pesquisados que apostavam, 68,73% declararam ter tido mais perdas do que ganhos; 52,39% disseram ter comprometido boa parte da renda, utilizado dinheiro aplicado ou feito empréstimo para jogar; e 39,72% afirmaram possuir dívidas em razão dos jogos e apostas.
É aí que a bet deixa de ser apenas entretenimento e passa a ser um problema econômico e social.
Evidentemente, não se pode atribuir às apostas todo o endividamento das famílias brasileiras. Juros elevados, cartão de crédito, crédito caro, desemprego, renda insuficiente e custo de vida também explicam parte importante do problema. Mas as bets acrescentaram algo especialmente perverso: uma saída permanente de dinheiro da renda familiar baseada na esperança de recuperar amanhã aquilo que se perdeu hoje.
O mecanismo pode produzir um círculo vicioso. O trabalhador perde R$ 50. Em vez de parar, aposta outros R$ 100 tentando recuperar os R$ 50. Perde novamente. Agora precisa recuperar R$ 150. Aposta mais. Em determinado momento, já não joga para ganhar. Joga para recuperar o que perdeu. A aposta começa então a disputar espaço com supermercado, aluguel, conta de luz, medicamento e prestação atrasada.
O impacto das apostas nas famílias de menor renda
O problema é ainda mais grave entre as famílias de menor renda. Levantamento do Tribunal de Contas da União identificou que, em janeiro de 2025, cerca de 4,44 milhões de famílias da base analisada do Bolsa Família fizeram transferências para casas de apostas, num total de aproximadamente R$ 3,7 bilhões. O próprio TCU faz ressalvas metodológicas importantes: muitas dessas famílias possuem outras fontes de renda e não se pode afirmar que o dinheiro apostado tenha saído diretamente do benefício.
Mesmo com essas cautelas, um número chama atenção: cerca de 802 mil famílias apostadoras comprometeram mais de 2% da renda mensal com apostas, mesmo após considerado o retorno estimado dos prêmios, situação classificada no levantamento como crítica para necessidades básicas, endividamento e risco social.
Há ainda uma poderosa máquina de publicidade por trás desse mercado. Celebridades, influenciadores e clubes de futebol ajudam a associar apostas a diversão, sucesso e possibilidade de enriquecimento rápido. Na pesquisa do Procon-SP, 56,62% dos apostadores disseram ter sofrido influência da publicidade com celebridades na decisão de jogar ou apostar.
Flamengo, patrocínio e a posição dos torcedores
E aqui faço uma observação pessoal. Sou flamenguista e continuarei sendo flamenguista. Mas sou contra as bets e contra os jogos de azar. Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra.
O Flamengo tem a Betano como patrocinadora máster e se manifestou publicamente em defesa da manutenção do mercado legal e regulado de apostas, argumentando, entre outros pontos, sobre segurança jurídica e receitas destinadas ao esporte. É uma posição institucional do clube. Pode ser discutida, apoiada ou contestada. Mas não obriga seus milhões de torcedores a pensar da mesma maneira.
Minha paixão é pelo Flamengo, não pela empresa de apostas estampada em sua camisa. Patrocinadores passam. O Flamengo fica.
Também considero equivocado transformar esse debate numa guerra política entre flamenguistas, bolsonaristas, lulistas ou qualquer outro grupo. O problema é maior. A pergunta essencial é: quais são as consequências econômicas e sociais de uma atividade que movimenta bilhões de reais e alcança milhões de famílias?
Os limites da regulação das bets e a proteção social
A pessoa que possui renda confortável pode perder R$ 100 numa aposta e tratar aquilo como lazer. Para quem vive contando dinheiro para chegar ao fim do mês, os mesmos R$ 100 podem significar comida, transporte ou medicamento.
O Estado regulamentou o mercado, tributa as empresas e estabeleceu regras de funcionamento. Mas regulamentar não elimina o dano social do jogo excessivo. É necessário discutir publicidade, prevenção à dependência, proteção dos vulneráveis, limites e mecanismos efetivos de controle.
As bets não inventaram o endividamento brasileiro. Mas encontraram nele um terreno extraordinariamente fértil.
Transformaram o celular em cassino, o Pix em ficha de aposta e a dificuldade financeira em esperança de enriquecimento instantâneo.
No final, permanece uma velha regra conhecida desde que existem jogos de azar: alguns apostadores podem ganhar. Muitos perderão. Mas a casa foi construída para ganhar.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
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