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André Mendonça e a mídia: cabos eleitorais de Flávio?

Há uma pergunta que precisa ser feita antes que o eleitor brasileiro vá às urnas: até onde a condução de…

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André Mendonça e a mídia: cabos eleitorais de Flávio?


Há uma pergunta que precisa ser feita antes que o eleitor brasileiro vá às urnas: até onde a condução de André Mendonça nos casos Banco Master e INSS – somada à maneira como a grande mídia seleciona, amplifica ou silencia determinados fatos – contribuiu para criar o ambiente em que Flávio Bolsonaro vem crescendo nas pesquisas?

Não estou falando de impressão. Comecemos pelos números. Em junho, o Datafolha registrava Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 31%. Em julho, Flávio foi a 32%. Em agosto, a 33%. Em setembro, chegou primeiro a 35% e depois a 36%. Lula, no último levantamento, estava com 39%.

Em três meses, portanto, a diferença entre os dois caiu de dez para três pontos percentuais. O crescimento de Flávio ao longo da série existe e está registrado.

Mas há um segundo dado, talvez ainda mais importante. O Datafolha perguntou aos brasileiros se a crise envolvendo o STF e o Banco Master teria influência na escolha presidencial. Quarenta e sete por cento responderam que sim. E, quando perguntados sobre quem estaria sendo prejudicado politicamente pelo episódio, 38% citaram Lula e 31% Flávio Bolsonaro. Está aí o ponto central deste artigo.

Não estou preocupado com o bolsonarista convicto nem com o petista convicto. Estou falando daquele eleitor que não se considera de esquerda nem de direita e que muitas vezes decide seu voto pela percepção de honestidade, corrupção, comportamento pessoal e moralidade.

É justamente nesse segmento que uma parcela expressiva ainda admite mudar de voto. E de onde esse eleitor retira grande parte das informações com as quais forma sua percepção? Da televisão. Dos jornais. Dos portais. Das redes sociais alimentadas pelas notícias produzidas pelos grandes veículos. É aí que André Mendonça e a grande mídia entram nesta história.

A seletividade não é mais uma suspeita abstrata

No caso Banco Master, aconteceu algo extraordinário. André Mendonça tornou públicos inicialmente apenas parte dos procedimentos.

A Procuradoria-Geral da República reagiu. O presidente do Supremo, Edson Fachin, determinou que Mendonça ampliasse a publicidade dos autos. E Alexandre de Moraes acusou expressamente o colega de ter realizado uma “escolha seletiva” do material tornado público. Somente posteriormente vieram a público procedimentos envolvendo diferentes personagens políticos, inclusive Flávio Bolsonaro.

E aí apareceu aquilo que o eleitor ainda não conhecia em toda a sua extensão: Flávio já era formalmente investigado no caso Dark Horse, relacionado a recursos disponibilizados por Daniel Vorcaro. Portanto, a pergunta é inevitável: por que justamente informações eleitoralmente relevantes sobre o candidato Flávio Bolsonaro permaneceram fora da primeira abertura dos procedimentos?

E essa pergunta deve ser feita diretamente ao relator. Ministro André Mendonça: por quê? Por que o Dark Horse, investigação que atingia Flávio Bolsonaro, não apareceu na primeira abertura? Por que foi necessária pressão institucional para que outros procedimentos viessem a público? E, principalmente: qual foi a profundidade das investigações determinadas contra Flávio Bolsonaro? Foi quebrado seu sigilo bancário? Foi quebrado seu sigilo fiscal? Foi quebrado seu sigilo telemático?

Se essas medidas foram adotadas, diga-se claramente. Se não foram, por que não foram? Não estamos falando de uma pessoa lateralmente atingida por uma investigação. Estamos falando de um candidato à Presidência da República.

E o INSS?

A comparação com o caso INSS acrescenta outra pergunta. André Mendonça autorizou contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático.

Lulinha não é candidato. Não disputará eleição. Seu nome, porém, possui evidente repercussão política porque é filho do presidente Lula.

Não pretendo transformar Lulinha no personagem deste artigo. O ponto é outro: o episódio demonstra que, quando considerou necessário aprofundar uma investigação, Mendonça utilizou instrumentos capazes de alcançar contas, informações fiscais e comunicações.

Então volto imediatamente a Flávio Bolsonaro: onde está a investigação de igual profundidade sobre o candidato à Presidência?

E apareceu agora outra informação que precisa ser esclarecida: empresa ligada a Flávio Bolsonaro foi registrada no mesmo endereço utilizado por empresas relacionadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, o chamado Careca do INSS.

Coincidência de endereço não prova crime. Evidentemente. Mas investigação existe justamente para descobrir se uma coincidência é apenas coincidência. Então pergunto novamente ao relator: Ministro Mendonça, o senhor mandou investigar isso? Mandou verificar a utilização daquele endereço? Mandou cruzar as relações empresariais? Mandou verificar se existe alguma relação financeira? Se mandou, qual foi o resultado? Se não mandou, por quê?

Quando o sigilo entra na entrevista

Há um episódio que mostra concretamente o poder que a seletividade do sigilo pode exercer sobre a própria cobertura jornalística.

Quando Flávio Bolsonaro foi entrevistado pela TV Globo, em 28 de agosto, foi questionado sobre o Dark Horse, Daniel Vorcaro e os recursos destinados ao filme. Mas não ouviu uma pergunta que, hoje, parece elementar: “Flávio Bolsonaro, o senhor já figura formalmente como investigado nesse inquérito. O que tem a dizer sobre isso?”

A Globo não fez essa pergunta por uma razão decisiva: essa informação ainda não era pública. Somente depois da retirada do sigilo tornou-se conhecido que Flávio já figurava formalmente como investigado e que havia relatórios da Polícia Federal sobre sua interlocução com Vorcaro. Portanto, nesse episódio específico, a pergunta não deve ser dirigida à Globo. Deve ser dirigida a André Mendonça.

Ministro Mendonça, por que uma informação eleitoralmente tão relevante permaneceu sob sigilo naquele momento? E qual foi a consequência concreta desse sigilo? Milhões de brasileiros assistiram à entrevista de um candidato à Presidência sem saber que ele já figurava como investigado. E os próprios jornalistas não dispunham dessa informação para confrontá-lo.

Aquilo que permanece escondido nos autos não vira manchete. Não vira pergunta. Não vira contraditório. E não chega ao eleitor.

E a grande mídia?

Agora chegamos ao segundo personagem do título. Quantas manchetes foram produzidas a partir de informações capazes de aproximar os escândalos do governo Lula? Quantas horas de televisão? Quantas chamadas nos grandes portais? Quantas vezes o nome de Lulinha apareceu? E qual foi a intensidade da cobertura quando o país descobriu que Flávio Bolsonaro já estava formalmente investigado? Qual foi o destaque dado à informação de que justamente o procedimento que alcançava Flávio permanecera fora da primeira abertura dos processos?

Não basta um veículo responder: “Nós publicamos”. O poder da mídia não está apenas em publicar ou não publicar. Está na hierarquia da notícia. Está no tamanho da manchete. Está na quantidade de dias. Está na fotografia. Está no comentarista repetindo o assunto. Está na abertura do telejornal. Está no personagem escolhido para representar o escândalo. E está também no silêncio.

Porque, depois de semanas de exposição desigual, o eleitor pode não lembrar os detalhes de uma investigação. Mas lembra quem aprendeu a associar ao escândalo.

O eleitor que pode decidir a eleição

É aqui que voltamos às pesquisas. Flávio Bolsonaro cresceu. A distância para Lula diminuiu. E parcela expressiva dos eleitores declara que a crise envolvendo STF e Banco Master interfere na decisão eleitoral.

É por isso que não estou discutindo aqui o eleitor ideologicamente fechado. Estou falando daquele eleitor de centro, sem fidelidade partidária rígida, que olha para um candidato e pergunta: “Quem é corrupto?” “Quem está envolvido?” “Quem é honesto?” “Quem merece confiança?”

Se durante meses esse eleitor recebe determinadas informações com enorme intensidade e outras chegam tarde, fragmentadas ou quase escondidas, isso importa eleitoralmente. E é exatamente nesse ponto que Mendonça e a grande mídia se encontram.

Mendonça não chegou ao Supremo vindo de Marte

André Mendonça foi indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro. Quando ministro da Justiça, chamou Bolsonaro publicamente de “profeta”. Isso não prova, por si só, favorecimento em qualquer decisão posterior. Mas também não obriga o brasileiro a apagar a própria memória.

Hoje, Mendonça conduz investigações de enorme repercussão política numa eleição presidencial disputada justamente pelo filho do presidente que o colocou no Supremo. Por isso, dele se deve exigir ainda mais transparência. E por isso suas decisões precisam ser escrutinadas.

Não estou interessado em saber se André Mendonça gosta ou não gosta de Flávio Bolsonaro. Estou interessado em saber o que ele investigou, o que não investigou, o que abriu, o que manteve fechado e por quê.

Cabos eleitorais?

Chegamos, então, à pergunta do título. Flávio Bolsonaro cresce nas pesquisas. A crise Master/STF influencia a decisão declarada de parcela expressiva do eleitorado. Informações capazes de atingir politicamente Lula receberam enorme repercussão.

Ao mesmo tempo, procedimentos que continham informações eleitoralmente relevantes sobre Flávio permaneceram inicialmente fora da abertura promovida pelo próprio relator. Depois, sob pressão institucional, começaram a aparecer.

Então não me peçam para não fazer a pergunta. Até onde André Mendonça e a grande mídia estão contribuindo para o crescimento eleitoral de Flávio Bolsonaro? Não estou dizendo quantos pontos Mendonça acrescentou a Flávio. Nenhuma pesquisa mede isso. Estou perguntando algo que os fatos permitem perguntar: que imagem do escândalo chegou ao eleitor enquanto Flávio crescia? Quem aparecia nas manchetes? Quem permanecia protegido pelo sigilo? Quem teve a vida financeira, fiscal e telemática devassada? Quem não teve pelo menos até onde se tornou público? E quando informações desfavoráveis a Flávio finalmente apareceram, receberam o mesmo tratamento?

É essa sequência que precisa ser confrontada. Porque eleição não se influencia apenas inventando mentiras. Também se influencia selecionando verdades. Escolhendo qual verdade aparece primeiro. Qual ocupa a manchete. Qual será repetida durante semanas. E qual permanecerá escondida até que alguém obrigue sua divulgação.

É por isso que a pergunta do título não é gratuita. Diante do crescimento de Flávio Bolsonaro, da seletividade já denunciada dentro do próprio Supremo e do tratamento desigual que precisa ser confrontado na cobertura jornalística, o eleitor brasileiro tem o direito de perguntar: André Mendonça e a grande mídia estão funcionando como cabos eleitorais de Flávio Bolsonaro?

A resposta não deve vir de torcida política. Deve vir dos fatos.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

Foto: Luiz Roberto/TSE.



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