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A simbiose da mentira: mitomania e dissonância cognitiva

Toda mentira política precisa de dois personagens: alguém disposto a contá-la e alguém disposto a continuar acreditando nela mesmo depois…

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A simbiose da mentira: mitomania e dissonância cognitiva


Toda mentira política precisa de dois personagens: alguém disposto a contá-la e alguém disposto a continuar acreditando nela mesmo depois que os fatos a desmentem. É dessa simbiose que trato aqui.

De um lado está Flávio Bolsonaro. Uso “mitomania” no título em sentido político e retórico, não como diagnóstico médico. Do outro está uma parcela do eleitorado que parece capaz de acomodar sucessivas contradições entre aquilo que o candidato diz e aquilo que os fatos mostram.

Na psicologia, dois conceitos ajudam a compreender esse segundo personagem: dissonância cognitiva e viés de confirmação. Quando um fato ameaça uma convicção profundamente arraigada, é possível procurar explicações que permitam preservar a crença. E tendemos a aceitar com maior facilidade informações que confirmam aquilo em que já acreditamos. É nesse terreno que a mentira política encontra fertilidade.

A inflação e a memória seletiva

Vejamos Flávio Bolsonaro.

Ele afirma que o governo Lula “gasta muito, aumenta a inflação”, que os R$ 600 do Bolsa Família “não compram mais nada” e que o carrinho de supermercado podia ser mais cheio no governo de seu pai.

A inflação incomoda hoje? Claro que sim. O custo de vida é uma preocupação legítima. Mas existe memória estatística: o IPCA chegou a 10,06% em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro, e fechou 2022 em 5,79%. São números do IBGE.

A inflação de Bolsonaro desaparece do discurso de Flávio porque atrapalha a narrativa. O mesmo método aparece nas contas públicas.

Em pronunciamento no Senado, Flávio afirmou que Bolsonaro teria entregue ao governo seguinte um superávit de R$ 180 bilhões e um país com “as contas ajustadas”. Está registrado no Senado. O resultado oficial do Governo Federal em 2022 foi superavitário em R$ 59,7 bilhões, segundo o Tesouro Nacional.

E há outra parte da história que o discurso omite.

A proposta orçamentária enviada pelo próprio governo Bolsonaro para 2023 não garantia a manutenção dos R$ 600 do programa social durante todo o ano. Foram necessários R$ 52 bilhões adicionais para mantê-los e outros R$ 18 bilhões para o adicional por criança. A mudança orçamentária foi feita ainda em dezembro de 2022.

Também ficaram para o governo seguinte os efeitos de medidas tomadas em 2022. A compensação negociada com estados e Distrito Federal pelas perdas de ICMS decorrentes das mudanças sobre combustíveis, energia, comunicações e transportes chegou a R$ 26,9 bilhões. O próprio Tesouro reconheceu, em 2023, que as desonerações realizadas no ano anterior continuavam afetando as receitas.

A fotografia das contas públicas

Portanto, o superávit contábil existiu. A mentira está em transformar aquela fotografia em prova de que Bolsonaro deixou um país fiscalmente arrumado, omitindo despesas e efeitos fiscais transferidos para o exercício seguinte. É como alguém mostrar o saldo bancário no dia 31 e esconder os boletos que deixou para janeiro.

Mas, para nós, amazonenses, existe um exemplo ainda mais pedagógico: a Zona Franca de Manaus. Flávio veio a Manaus e vestiu uma camisa estampada “100% Zona Franca”. Só que camisa não vota no Senado. O senador vota. E o registro parlamentar permanece.

Em novembro de 2023, durante a reforma tributária, Flávio fez um duro pronunciamento contra a PEC 45 e encerrou anunciando seu voto: “não”. O próprio Senado mantém o discurso e o voto registrados. Além disso, durante o governo de Jair Bolsonaro, a política de redução do IPI atingiu inicialmente produtos também fabricados no Polo Industrial de Manaus, ameaçando justamente a vantagem comparativa que sustenta o modelo.

Quando a contradição deixa de importar

Agora o filho chega a Manaus, veste “100% Zona Franca” e espera que o amazonense esqueça. É aqui que entra o segundo personagem da nossa história. O eleitor. Diante da contradição, seria razoável perguntar: senador, como conciliar seu histórico político com essa camisa?

Mas a dissonância cognitiva oferece uma saída mais confortável: “isso é passado”; “agora ele apoia”; “você está superado”. O fato não desapareceu. Apenas deixou de importar para quem não quer que ele importe.

E então chegamos a Daniel Vorcaro.

Em março deste ano, quando seu telefone apareceu na agenda do então dono do Banco Master, Flávio negou ter tido qualquer contato com ele. Dois meses depois, diante de mensagens e áudios revelados pela imprensa, admitiu que procurou Vorcaro para conseguir dinheiro para o filme sobre Jair Bolsonaro.

Não eram trocados. Segundo as informações publicadas, Vorcaro repassou R$ 61 milhões ao projeto, enquanto o valor total negociado chegaria a R$ 134 milhões. Flávio reconheceu ter solicitado os recursos, embora negue ter recebido pessoalmente dinheiro ou oferecido qualquer vantagem ao banqueiro.

Do “nunca entrei” à viagem de avião

Há mais. Em mensagem divulgada pela investigação, Flávio tratava Vorcaro como “irmão” e dizia que estaria sempre com ele. Do “nunca tive contato” chegamos ao pedido de dezenas de milhões de reais. E então apareceu o avião.

Há apenas três meses, Flávio declarou categoricamente que nunca havia entrado em avião de Vorcaro e afirmou que sua única relação com o banqueiro era o filme de seu pai. Depois surgiu o registro de uma viagem realizada em janeiro de 2025, de Fort Lauderdale para Brasília, com sua mulher e filhas, em um jato ligado a Vorcaro.

Veio então uma nova explicação: Flávio disse que havia viajado a convite do advogado Willer Tomaz e que entendia que o avião pertencia a ele. Percebam a sequência. Não conhecia. Depois conhecia. A relação era apenas um encontro.

Depois aparecem mensagens e pedidos de dinheiro. “Nunca entrei em avião de Vorcaro.” Depois aparece a viagem. Então o avião seria de outra pessoa.

A simbiose da mentira se completa

Sempre existe uma versão nova esperando para substituir a anterior. E é aqui que a simbiose se completa. A mentira política não precisa vencer os fatos. Precisa vencer a memória.

O político oferece uma narrativa conveniente. O eleitor emocionalmente identificado com aquela liderança oferece a tolerância necessária para preservá-la. Quando surge um fato contrário, ele não necessariamente reconsidera sua posição. Pode reinterpretar o fato para proteger sua crença.

Não é falta de informação. Os documentos estão disponíveis. Os vídeos existem. Os votos parlamentares permanecem registrados. As declarações anteriores podem ser recuperadas em segundos. É outra coisa. É escolher o discurso e desprezar o ato.

Escolher a camisa “100% Zona Franca” e esquecer o voto. Escolher a nova explicação sobre Vorcaro e esquecer que antes não havia contato. Escolher a nova versão sobre o avião e esquecer o “nunca entrei”. Escolher o discurso sobre inflação e esquecer os 10,06%.

Quando a mentira precisa vencer a memória

Assim funciona a simbiose. De um lado, um político que aposta que cada nova versão apagará a anterior. Do outro, eleitores para os quais reconhecer a contradição pode significar admitir que sua própria crença política precisa ser revista. Por isso a mentira eleitoral pode ser tão eficiente.

Flávio Bolsonaro não precisa que suas versões resistam aos fatos. Precisa apenas que sobrevivam na memória de seus eleitores. E talvez seja esse o problema mais grave. Numa democracia, políticos mentirem não é novidade. A tragédia começa quando descobrem que mentir continua eleitoralmente rentável mesmo depois que a mentira foi confrontada com documentos.

Nesse momento, já não existe apenas o mentiroso. Existe a simbiose.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.



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