O primeiro turno da eleição presidencial de 2026 terminou com uma diferença pequena entre os dois candidatos que avançaram para a etapa decisiva. Com 99,99% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro obteve 56.104.268 votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 53.876.617 votos, ou 45,16%. A vantagem inicial de Flávio foi, portanto, de 2.227.651 votos. O segundo turno começa com uma disputa apertada, mas a matemática dos candidatos eliminados ajuda a mostrar de onde podem vir parte dos votos adicionais.
Os três principais candidatos que ficaram fora da disputa foram Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado. Cury recebeu aproximadamente 3,45 milhões de votos, Renan cerca de 2,68 milhões e Caiado aproximadamente 2,61 milhões. Juntos, representam perto de 8,73 milhões de votos. Esse contingente é superior à diferença registrada entre Flávio e Lula e, por isso, sua redistribuição merece atenção.
Para onde podem ir os votos dos candidatos eliminados
Na pesquisa Datafolha realizada na véspera do primeiro turno, os eleitores desses três candidatos foram perguntados sobre como votariam num segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Entre os eleitores de Augusto Cury, 39% declararam preferência por Flávio e 30% por Lula; 27% indicaram voto branco ou nulo. Entre os eleitores de Ronaldo Caiado, 44% escolheriam Flávio e 27% Lula, com 28% de brancos e nulos. Já entre os eleitores de Renan Santos, 51% apontaram Flávio e 19% Lula, enquanto 27% disseram que votariam em branco ou nulo. Como essas respostas provêm de subamostras pequenas, devem ser tratadas como uma indicação de tendência, e não como previsão.
Simulação de transferência dos três maiores eleitorados eliminados
| Origem | Votos no 1º turno | % Flávio | % Lula | Para Flávio | Para Lula |
|---|---|---|---|---|---|
| Augusto Cury | 3,45 mi | 39% | 30% | +1,34 mi | +1,03 mi |
| Renan Santos | 2,68 mi | 51% | 19% | +1,36 mi | +0,51 mi |
| Ronaldo Caiado | 2,61 mi | 44% | 27% | +1,15 mi | +0,70 mi |
| Total aproximado | 8,73 mi | — | — | +3,86 mi | +2,24 mi |
Aplicando mecanicamente essas proporções à votação efetiva do primeiro turno, Flávio Bolsonaro receberia aproximadamente 3,86 milhões de votos provenientes desses três grupos, enquanto Lula acrescentaria cerca de 2,24 milhões. Mantidos todos os demais votos, Flávio passaria de aproximadamente 56,10 milhões para 59,96 milhões, e Lula de 53,88 milhões para cerca de 56,12 milhões. A diferença, nesse exercício, subiria para aproximadamente 3,84 milhões de votos.
A matemática do segundo turno não é uma previsão
Esse cálculo não constitui uma previsão do resultado do segundo turno. Ele apenas responde a uma pergunta específica: o que aconteceria se os eleitores de Cury, Renan e Caiado votassem exatamente nas proporções que declararam ao Datafolha antes do primeiro turno? Na eleição real, parte deles pode mudar de posição, deixar de votar, votar branco ou nulo, e a campanha de segundo turno pode modificar preferências. Além disso, ainda existem os votos de Romeu Zema e dos candidatos menores, além dos eleitores que se abstiveram no primeiro turno.
A pesquisa nacional do próprio Datafolha, feita na véspera da votação, reforça a necessidade dessa cautela. No confronto direto de segundo turno, Lula aparecia com 47% e Flávio com 46%, diferença dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Outros institutos divulgados na mesma semana também mostravam uma disputa estreita, com resultados numéricos diferentes entre si. Assim, a transferência dos candidatos eliminados é apenas uma das forças que atuarão na nova votação.
Quanto falta para chegar aos 50% dos votos
A matemática dos 50% também ajuda a dimensionar a disputa. O primeiro turno registrou 125.272.513 votos válidos. Se o segundo turno repetisse exatamente esse total, seriam necessários 62.636.257 votos para ultrapassar a metade. Tomando apenas a votação obtida no primeiro turno como referência, Flávio precisaria acrescentar 6.531.989 votos e Lula, 8.759.640. Depois da simulação de transferência de Cury, Renan e Caiado, Flávio ficaria a cerca de 2,68 milhões desse patamar e Lula a aproximadamente 6,52 milhões.
Mas o número de votos válidos do segundo turno não será necessariamente o mesmo. Brancos e nulos não entram no cálculo dos votos válidos, e a abstenção também pode mudar. Há ainda outra propriedade importante: um eleitor que migre diretamente de um candidato para o outro produz um efeito duplo sobre a diferença. Se um voto de Flávio passar para Lula, Flávio perde um e Lula ganha um. Mantido todo o restante constante, a diferença de 2.227.651 votos observada no primeiro turno seria anulada por uma migração direta de aproximadamente 1,114 milhão de eleitores de Flávio para Lula.
Uma vantagem real, mas longe de ser definitiva
Os números, portanto, mostram duas coisas simultaneamente. A primeira é que, se prevalecer a tendência de transferência medida entre os três maiores candidatos eliminados, Flávio Bolsonaro receberia uma parcela maior desses votos do que Lula. A segunda é que a distância inicial permanece pequena diante do tamanho do eleitorado e do volume de votos ainda sujeito a redistribuição. O segundo turno começa, assim, com uma vantagem numérica registrada nas urnas para Flávio, mas com milhões de votos cujo comportamento não pode ser determinado pela simples reprodução do primeiro turno.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.
Fontes
• Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Resultado do 1º turno para Presidente da República, Eleições 2026, atualização de 5 out. 2026.
• Datafolha. “Na véspera da eleição, Lula tem 45% dos válidos no 1º turno, empatado com Flavio Bolsonaro (42%)”, 4 out. 2026.
• UOL Eleições. Compilação das pesquisas presidenciais divulgadas até 3 out. 2026.