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A bacia que me levou de volta: memórias de infância e da mãe

De repente, eu já não estava mais na loja. Continuava olhando para as bacias de alumínio, alinhadas umas dentro das…

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A bacia que me levou de volta: memórias de infância e da mãe


De repente, eu já não estava mais na loja.

Continuava olhando para as bacias de alumínio, alinhadas umas dentro das outras, da maior para a menor. Mas alguma coisa me levou para dentro da maior delas. Eu era menino outra vez. Pegava a bacia pequena, encaixada nas outras, jogava água sobre o corpo e sentia o mundo caber naquele banho.

Voltei 54 anos na minha vida.

Eu tinha ido ao Centro acompanhar um amigo do interior. Ele queria comprar colheres e facas resistentes, daquelas que não entortam à toa. Como não conhece muito bem a cidade, pediu que eu o levasse a um comércio onde pudesse encontrar talheres pesados, bons e com preço justo. Daqueles que enfrentam até um mocotó mal cozido e ainda cortam.

Enquanto ele escolhia as peças, meus olhos correram pela loja e pararam nas bacias de alumínio. Foi ali que o presente abriu passagem para o passado.

O cheiro das folhas no quintal da minha avó

Na bacia da minha lembrança, eu tomava banho de folhas do quintal da minha avó. Era o jeito de interromper minhas birras. Lembro do cheiro do pião-roxo, do capitiú, da folha de algodão, do alecrim. As folhas se misturavam à água e, pouco a pouco, a braveza também ia embora. Eu saía calminho, calminho.

A memória, quando começa a andar, não fica parada na primeira cena. Logo me vi acompanhando minha mãe em outro trabalho: lavando as trouxas de roupa da dona Ray. Era uma renda que ajudava em casa, antes de ela conseguir o emprego de zeladora de escola.

Quando as trouxas eram grandes demais, eu ia com ela até a beira do rio Amazonas. Ali, entre a água e a roupa, aprendi sem perceber que o trabalho também pode ser uma forma de cuidado. Minha mãe lavava, torcia, esfregava. E eu estava perto, pequeno demais para ajudar muito, mas atento ao esforço que sustentava a nossa vida.

Uma bacia que guarda uma vida inteira

Saí da loja diferente de quando entrei. Meu amigo levou os talheres que procurava. Eu levei comigo a bacia, o cheiro das folhas, a beira do rio e a lembrança das mãos da minha mãe.

Há objetos que guardam mais do que sua utilidade. Uma bacia pode ser banho, infância, remédio para birra e retrato de uma casa. Pode também nos devolver à força de quem nos criou.

Hoje, entre colheres, facas e alumínio, voltei para casa com mais do que uma compra. Voltei revigorado, e com ainda mais respeito pelos valores e pela força que aprendi com a minha mãe.

O autor é jornalista e filósofo*.

Foto: Divulgação/ imagem gerada por IA.



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